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-329 DIAS PARA O CARNAVAL 2011

 

 

Postado por Edgar Filho, Beto Mussa e Simas | 09/11/11 - 15:30

sambas de enredo

Epopéias brasileiras

Hoje estamos vivendo o início das discussões sobre os sambas de enredo 2012 e suas gravações, por Clique para ampliarisso achamos oportuno publicar um texto do Simas sobre o assunto:

Quando escrevemos, Alberto Mussa e eu, nosso livro sobre sambas de enredo, partimos da constatação de que essa espécie de samba é talvez a mais impressionante e surpreendente de todas. Defendemos, basicamente, que o samba de enredo não é lírico - contrariando assim uma tendência universal da música popular urbana - , integra o maior complexo de exibições artísticas simultâneas do mundo moderno (o desfile das escolas de samba) e, não bastasse isso, é um gênero épico. Mais ainda: é o único gênero épico genuinamente brasileiro. Cito o Houaiss:

epopéia

1 Rubrica: literatura.

poema épico ou longa narrativa em prosa, em estilo oratório, que exalta as ações, os feitos memoráveis de um herói histórico ou lendário que representa uma coletividade

2 Derivação: por extensão de sentido.

sucessão de eventos extraordinários, ações gloriosas, retumbantes, capazes de provocar a admiração, a surpresa, a maravilha, a grandiosidade da epopéia

3 Derivação: sentido figurado.

aventura fabulosa

Clique para ampliarOs sambas de enredo constituem o corpo de uma grande epopéia brasileira. Digo mais: raros são os povos que têm um conjunto tão sofisticado de epopéias. Silas de Oliveira é o nosso Homero. Os Sertões, a obra monumental de Edeor de Paula para a Em Cima da Hora, é dos maiores cantos épicos que a humanidade produziu. O Império Serrano tem, para a história da civilização, importância no mínimo similar a de Atenas. Não se pode contar a história gloriosa da humanidade sem a Grécia, sem o Egito, sem a Babilônia, sem a Serrinha...

Senhores professores de literatura do ensino médio: Que tal, ao ensinar aos brasileirinhos o que é um gênero épico, falar de Homero, Virgílio, Camões, Silas, Jurandir, Didi, Aurinho, Anescar... Que tal, depois de trechos da Ilíada, da Eneida e de Os Lusíadas, botar os garotos para escutar Pernambuco, Leão do Norte , Batalha Naval do Riachuelo, Quilombo dos Palmares, Chico Rei, Ao povo em forma de arte, O saber poético da literatura de cordel...

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Postado por Edgar Filho, Beto Mussa e Simas | 24/06/11 - 19:02

puxadores de sambas de enredo

Aroldo Melodia - segura a marimba!

Clique para ampliarEsse negócio de escrever coluna e fazer samba a três são coisas que nos dão muito prazer, por que, mais do que parceiros, somos amigos, e unidos por gostos muito próximos nesse quesito. E puxador de samba de enredo é fogo, e nosso preferido nunca foi o genial Jamelão, que preferia, inclusive, ser chamado de intérprete, e era mesmo um senhor intérprete da música brasileira. O nosso puxador predileto, gênio absoluto da nobre arte de sustentar o canto da escola na avenida, morreu numa quarta-feira de 2008. Falamos do grande Aroldo Fiorde, que em virtude da afinação irretocável ganhou o apelido de Aroldo Melodia.

O grande puxador da União da Ilha do Governador conseguia como ninguém sustentar o canto e, ao mesmo tempo, comandar a festa do público, com o insuperável grito de guerra "Segura a Marimba"! A primeira vez em que despontou para o grande público foi puxando na avenida o irretocável samba "Domingo", do Aurinho da Ilha, Ione do Nascimento, Ademar Vinhaes e Waldir da Vala, obra prima em tom menor que ganhou um colorido especialíssimo na voz do mestre.

Clique para ampliarAroldo também foi compositor de sambas memoráveis de sua União da Ilha do Governador: "Lendas e festas da yabás", de 1974, e "O que será", de 1979.

Aroldo Melodia foi em silêncio, sem alarde, sepultado no cemitério da Cacuia, na sua Ilha querida. Foi encontrar Didi, Mestrinho e Franco em algum boteco do Orum. Fica registrado aqui o nosso respeito pelo maior de todos, o que uniu o vigor, o canto doce e afinado e o entusiasmo pulsante - em nossa modestíssima opinião de admiradores absolutos do gênero samba enredo. Segura a marimba!

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Postado por Edgar Filho, Beto Mussa e Simas | 03/05/11 - 22:14

sambas de enredo

A festa dos curumins dançantes

Clique para ampliarAcompanho desfiles de escolas de samba desde que me conheço por alguma coisa parecida com gente. Já vivi momentos absolutamente emocionantes, arrebatadores mesmo, na Marquês de Sapucaí, Avenida Rio Branco e Intendente Magalhães - e garanto aos amigos que raros desses momentos aconteceram nos desfiles do grupo especial. Os grandes desfiles que vi, daqueles de comover até o diabo, aconteceram normalmente nos grupos de acesso.

Um deles foi o cortejo de 1999 da Unidos da Tijuca. A escola do Borel estava no grupo de acesso e apresentou o enredo O Dono da Terra - sobre as tradições e lendas de amor dos índios da amazônia brasileira.

Clique para ampliarO desempenho tijucano foi um caso sério. A entrada da escola na avenida, com refrões de delicadeza comovente, causou uma emoção na platéia que poucas vezes presenciei [o samba, aliás, tem três refrões, coisa que os entendidos atuais acham que não dá certo]. A comissão de frente, com os curumins dançando para a lua na festa das guerreiras, já deixou a avenida em polvorosa. O Borel se transformou na mais bonita das tabas do Brasil.

Abastecido por uma quantidade generosa de cerveja , chorei copiosamente ao ouvir a escola na beira da pista cantar a segunda parte do samba e não parei mais. Os índios, encantados brasileiros, cantavam assim na madrugada de lua minguante :

Hoje a Tijuca canta /Sacode e balança esta cidade /Viaja no conto do índio /O dono da terra, que felicidade / No cantar do Uirapuru /Tantas lendas pra contar /Sob as ordens de Rudá /Iara mandou Jaci clarear /E seu caminho iluminar / Veja o orvalho vem caindo /Cheiro das matas vem surgindo/ Vou navegar meu rio mar / Mistérios que vou desvendar /Por essas matas verdejantes / Têm seres sobrenaturais /Mulheres metade serpente /Curumins dançantes /E vi estranhos animais/ Farturas encontrei, com as plantas conversei/ Com as bênçãos de Rairu/ Sentei pra meditar/ Se a lua for minguante/ Eu peço a proteção /Me deixa com as guerreiras festejar.

Nesse ponto entra o refrão final, de uma simplicidade brilhante - uma declaração de amor em forma de samba de enredo. Uma das declarações de amor mais bonitas que ouvi na vida :

Pedras preciosas quero me enfeitar /Encantar a índia com o meu olhar/ Só Tupã sabia / Que eu não podia me apaixonar .

Clique para ampliarFaçam o seguinte: ouçam, primeiro, a versão em estúdio do samba.

Quem puder, escute o registro da Unidos da Tijuca entrando na Sapucaí, disponível na internet, com Davi do Pandeiro cantando o samba de enredo. Quem conhece um pouco de escola de samba sabe o que significa esse momento, quando o hino começa a ser levado com a base do cavaco, sete cordas, coro e efeitos - até a entrada arrepiante da bateria. A escola, na beira da pista, se prepara para começar o desfile. Esse é o momento que testa o coração do sambista - não há nada parecido no planeta, meus velhos. Escutem a linda declaração de amor tijucana [e reparem, quando entra a bateria, na ala das cuícas do nosso Borel].

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Postado por Edgar Filho, Beto Mussa e Simas | 02/02/11 - 19:35

blocos carnavalescos

Alô Cacique, cadê o Bafo?

Clique para ampliarUm das imagens mais marcantes do carnaval carioca desde a década de 1960 é, sem dúvidas, o desfile do Cacique de Ramos. Milhares de foliões fantasiados de apaches ocupam a Avenida Rio Branco e mostram como o Velho Oeste foi devorado antropofagicamente pelo ziriguidum tupiniquim. O Cacique é, ouso dizer, um marco civilizatório da maior relevância para a história da cidade do Rio de Janeiro e, consequentemente, do Brasil. A agremiação de Ramos foi, com suas rodas de samba à sombra da tamarineira sagrada, uma espécie de Tróia do samba diante da explosão midiática do rock nacional nos famigerados anos de 1980  e só isso bastaria para dar ao bloco um lugar de importância maior no panorama cultural brasileiro.

A louvação ao Cacique de Ramos leva, porém, a uma indagação: que diabos aconteceu com o Bafo da Onça, bloco que dividia com o Cacique a paixão dos foliões cariocas e hoje, enquanto o carnaval de rua volta ao centro da cena, anda caindo pelas tabelas, como pálida lembrança do que foi? Bafo e Cacique cansaram de transformar a Avenida Rio Branco, nos dias de Momo, em um verdadeiro Maracanã em domingo de Fla X Flu. Contar a história dos apaches sem falar das onças-pintadas é rigorosamente impossível.

Clique para ampliarO Bafo da Onça é mais antigo que o Cacique. O bloco foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos cinquenta. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria; um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.

Seu Tião Carpinteiro tinha ainda o hábito de começar a tomar uns gorós no dia de Santos Reis - data que marcava, para ele, o início das festas de Momo - e só encerrar os trabalhos na quarta feira de cinzas.

Ocorre que o Seu Tião bebia tanto, mas bebia tanto, que acabava ficando com um hálito meio pesado. Parecia, de fato, que comia carniça. Durante uma das carraspanas contumazes, um grupo de amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveu criar um bloco de carnaval. Todos sairiam fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, é evidente, já nasceu pronto.

O Bafo cresceu e virou atração do carnaval da cidade. As mulatas do Sargentelli, João Roberto Kelly, Oswaldo Nunes e Dominguinhos do Estácio eram figuras populares nos furdunços que a turma do Catumbi promovia. A popularidade foi tamanha que o próprio Bira Presidente, fundador e eterno dirigente do Cacique, admite que o bloco dos apaches de Ramos foi criado com o objetivo de superar as onças pintadas do Catumbi.

Clique para ampliarÉ inevitável, portanto, que os cinquenta anos do Cacique de Ramos venham acompanhados pelo júbilo e, também, pelo lamento em virtude do declínio do Bafo da Onça.

Quero crer que, dentre várias razões que explicam esse declínio (são mesmo inúmeras), uma merece ser ressaltada, até mesmo como um alerta.

A decadência do Bafo é análoga ao triste fim do bairro do Catumbi, centro de origem do bloco. Poucos bairros cariocas sofreram tanto com as reformas urbanas que, vez por outra, marcam a cidade. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o Catumbi foi sendo devastado. A abertura do túnel Santa Bárbara e, especialmente, a construção do viaduto 31 de março, dividiram o bairro em dois pedaços, ocasionaram a demolição de imóveis centenários e a destruição de quadras inteiras.

Em nome da reestruturação urbana do Rio, o Catumbi se transformou em um bairro de passagem, perdeu a maior parte de seus moradores e deixou de ser um centro de referência para a comunidade, com suas vivências, saberes, hábitos cotidianos e visões de mundo. O Bafo da Onça, de certa forma, era fruto desse espaço de convívio dizimado pelo poder público.

Que em tempos de remodelação urbana, choques de ordem, copas, olimpíadas e que tais, os responsáveis pelas intervenções urbanas tenham consciência de que os lugares são, mais do que qualquer outra coisa, espaços de construção de memórias, culturas, formas peculiares de se experimentar a vida e abordar o mundo. E que as tamarineiras cariocas  as que restam - continuem de pé.

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Postado por Edgar Filho, Beto Mussa e Simas | 10/10/10 - 14:09

sambas de enredo

Sambas Clássicos

Clique para ampliarFizemos uma série com os melhores sambas, nas nossas opiniões, de algumas das principais Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Evidentemente, não foi uma seleção nem exaustiva e nem definitiva, muito menos absoluta, apenas reflexo dos que ouvimos e mais gostamos. Há outros sambas merecedores de destaque? Muitos, òbviamente. Por isso, resolvemos publicar uma lista de sambas que merecem uma distinção, fora os já destacados nas colunas.

Há sambas de Escolas extintas, de Blocos que depois se tornaram Escolas... Há um pouco de tudo.

Com isso, pretendemos que alguns sambas que estão escondidos nos labirintos do esquecimento sejam ouvidos e discutidos, ou, pelo menos, lembrados.

Pois bem, a lista:

1946 - Prazer da Serrinha - Conferência de São Francisco
1953 - Cartolinhas de Caxias - Benfeitores do universo
1954 - Aprendizes de Lucas - Exaltação a São Paulo
1955 - Filhos do Deserto - Inferno Verde
1955 - Unidos do Salgueiro - Glória aos mártires da independência
1959 - Aprendizes da Boca do Mato - Machado de Assis
1961 - Unidos do Cabuçu - Rio, ontem e hoje
1961 - Tupi de Brás de Pina - Seca do nordeste
1970 - Canários - Ganga Zumba
1972 - Foliões de Botafogo - Tributo aos orixás
1973 - União de Jacarepaguá - As sete portas da Bahia de Carybé
1974 - Unidos do Viradouro - Pleito de vassalagem a Olorum
1974 - Canários das Laranjeiras - Tempo de obrigação
1975 - Caprichosos de Pilares - Congada do rei Davi
1975 - Lins Imperial - Dona Flor e seus dois maridos
1976 - Lins Imperial - Folia de reis
1976 - União de Jacarepaguá - Acalanto para Uiara


Clique para ampliar1977 - Unidos do Cabuçu - Sete povos das missões
1977 - Arranco do Engenho de Dentro - Logum, príncipe de Efan
1977 - União de Jacarepaguá - Banzo
1977 - Unidos de Manguinhos - Tesouro maldito
1977 - Flor da Mina do Andaraí - Engenho mal-assombrado
1978 - Engenho da Rainha - Criação do mundo segundo os Carajás
1978 - Santa Cruz - O mestre da musicologia nacional
1978 - Tupi de Brás de Pina - Manoa, um sonho dourado

1978 - União de Jacarepaguá - Cor, ação e samba
1978 - Vai Se Quiser - O mundo de Hilário de Ojuobá
1978 - Quilombo - Ao povo em forma de arte
1979 - Arrastão de Cascadura - Da lapinha ao coreto, um folguedo popular
1979 - Caprichosos de Pilares - Uruçumirim, paraíso tupinambá
1979 - Unidos de Lucas - O Rio de Janeiro em tempo de Debret
1979 - Lins Imperial - A guerra do reino divino
1979 - Acadêmicos do Cubango - Afoxé
1979 - Flor da Mina - A sacerdotisa do afefé
1979 - Quilombo - Noventa anos de Abolição
1980 - Arranco do Engenho de Dentro - O Guarani de José de Alencar
1981 - Arrastão de Cascadura - Rudá, o deus do amor
1981 - Unidos do Cabuçu - De Daomé a São Luis, a pureza mina-jêje
1981 - Acadêmicos do Engenho da Rainha - O curioso mercado de Ver o Peso
1981 - Acadêmicos do Cubango - Fruto do amor proibido
1981 - Quilombo - Solano Trindade, poeta negro
1982 - Caprichosos de Pilares - Moça bonita não paga
1982 - Unidos da Ponte - O casamento da dona baratinha
1982 - União de Jacarepaguá - Gosto que me enrosco
1983 - Unidos da Ponte - E eles verão a Deus
1983 - Unidos do Cabuçu - A visita do Oni de Ifé ao Obá de Oió
1983 - Santa Cruz - Uma andorinha só não faz verão
1983 - Unidos de Bangu - Obrigado, Brasil
1984 - Unidos da Ponte - Oferendas
1984 - Santa Cruz - Acima da coroa de um rei, só um deus
1984 - Corações Unidos - Maranhão, o que a história não conta mas se acredita
1984 - Acadêmicos do Cubango - Por que Oxalá usa Ekodidé
1984 - Pacíficos - A lenda dos orixás negros
1984 - Unidos do Viradouro - O sonho de Ilê Aifé
1985 - Arrastão de Cascadura - Depois do mal feito, chorar não é proveito
1985 - Acadêmicos do Engenho da Rainha - Não existe pecado no lado debaixo do Equador
1985 - Tradição - Pássaro guerreiro, Xingu


Clique para ampliar1987 - Tradição - Sonhos de Natal
1991 - Lins Imperial - Chico Mendes, o arauto da natureza
1992 - Rocinha - Pra não dizer que não falei das flores
1993 - Acadêmicos do Grande Rio - No mundo da Lua
1994 - Acadêmicos do Grande Rio - Os santos que a África não viu
1996 - Arrastão de Cascadura - As icamiabas
1996 - Paraíso do Tuiuti - Um mouro no quilombo, isto a história registra
2002 - Porto da Pedra - Serra acima, rumo à terra dos coroados

2006 - Arranco do Engenho de Dentro - Gueledés, o retrato da alma
2006 - Porto da Pedra - Preto e branco a cores
2006 - Acadêmicos do Cubango - Paracambi
2006 - Renascer de Jacarepaguá - Jacarepaguá, fábrica de sonhos
2006 - Rocinha - Gigante mundo dos pequenos
2008 - Acadêmicos do Cubango - Mercedes Baptista, de passo a passo, um passo

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